Walter Rodrigues, Nica Kessler, Mara Mac, Salinas, R.Groove e Acquastudio


Entre tapumes coloridos e referências africanas, Walter Rodrigues apresentou modelagem simplificada e linguagem visual elaborada. Principalmente nas apropriações coloridas de geometria tribal, aplicadas sobre vestidos fáceis e desejáveis. O casting 100% negro reacendeu um dos assuntos quentes da moda nacional. Os comprimentos e silhuetas são discretos, com vestidos secos funcionando como suporte para os motivos geometrizados. Essa contenção é assinatura do estilista. Assim como a pouca e boa alfaiataria que deu sustentação à leveza e despretensão elegante do conjunto. Os belos bordados, tramas e apliques têm a mão e a destreza de mulheres do projeto Pernambuco com Design, da cidade de Quipapá.

Anos 1930 e a bem cuidada arquitetura Art Deco de Miami (no Brasil ela anda literalmente em ruínas) deram forma e substância à coleção da estilista Nica Kessler. Ela foi concebida para garotas jovens e sexies, de longos e provocantes rabos de cavalo. Looks muito curtos e justos, alguns deles quase inviáveis, mas nem por isso desinteressantes como imagem de passarela, definiram a silhueta. A modelagem é exercitada sobre as curvas do corpo, explorando decotes, ombros vazios e cintura alta, com bom domínio técnico. Tome nota das estampas geométricas e das hotpants que prometem fazer a delícia dos corpos em forma neste verão.

Deslocando o impacto das apresentações para a teatralidade, com cubos vermelhos em suspensão e queda sobre toda a passarela, com assinatura da Bia Lessa, Mara Mac desfilou os exercícios formais rigorosos, de corte elegante e tropicalidade idealizada, que a clientela fiel aplaude com gosto. O peso da tradição modernista oferece um repertório consistente, define um traço estilístico e sustenta uma longevidade considerável, qualidade e condição raras no país. A contrapartida é que ela corre o risco de se manter excessivamente atrelada a si mesma. Perigo driblado nesta edição com a ajuda de texturas e transparências em camadas, de refinada investigação têxtil.

Tropicalidades cubanas e baianas, com sotaque da mãe África, entraram na bem-sucedida receita da Salinas. Em desfile sublinhado por musicalidade e ritmo, um tanto de inocência e um bocado de malícia deram o tempero final, e estava pronto o saboroso prato servido pela marca, muito bem colorido pelas estampas de paisagens e abacaxis. Carol Trentini fechou com listras e Ana Cláudia Michels, bela como sempre, mostrou a força dos monocromos em vermelho-fechado. Os formatos, segundo a Salinas, agora podem até ser menores.

R.Groove prometeu e cumpriu, levando uma salada de estilos para a passarela. A marca foi a única a apresentar roupa masculina no 1º dia. Em looks claros, retalhados e coloridos, preferiu contemplar ousadias do que atender a mesmice. Quem se arrisca erra, mas quando gosta de verdade do perigo, valida a experiência. E não são as misturas difíceis e os rosados improváveis que irão esconder os méritos da apresentação. É interessante ver como a alfaiataria, principalmente nos blazeres alongados usados com calças curtas, confere musculatura à ainda um pouco verde, mas cheia de vontade, R.Groove.

Trafegando em direção contrária à vocação comercial das temporadas de moda brasileira, Acquastudio tomou o rumo do experimentalismo há algumas estações. A marca emprega o domínio técnico exercido nos vestidos de noiva para soltar a imaginação na passarela. Causa espanto e divide opiniões. De toda forma, esta liberdade de testar limites merece crédito.  E se é verdade que nem sempre o que se vê soa exatamente como novo, é de longe mais interessante que a monotonia de vestidinhos básicos e blusinhas com shorts, desfilados inadequadamente sob o aparato que cerca um espetáculo de moda. Resumo radical: Bruna Tenório muito linda na abertura, organza e tule em camadas, volumes, off-white, cores elétricas. Tudo sobre salto alto e meia-pata em acrílico.

Visto em USEFASHION

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