Blue Man, Filhas de Gaia, Cavendish, Melk Z-da, OESTUDIO e TNG

Mais que um recurso de impacto, os jogos entre opostos (romantismo e secura, curvas e retas, efeitos vaporosos e estruturados), que têm marcado as apresentações, configuram desejos nítidos de experimentação. Funcionam como um passo para frente e outro para trás, sem que ninguém se afaste muito da zona de segurança. No 4º dia, quem fugiu à regra foi Melk Z Da, que se aprofundou em todas as direções que escolheu, e OEstudio, fiel no mergulho à identidade singular e engenhosa.

No pequeno Teatro Gláucio Gil, foram necessárias duas apresentações para acolher jornalistas e o público que compareceu para prestigiar a Blue Man. Em seu retorno à temporada carioca, a marca apostou em formato intimista, mas em grande estilo, acompanhada pelo violonista Yamandú Costa, a voz de Ney Matogrosso e o barulho dos saltos das dançarinas flamencas. Ney aproveitou a deixa para lançar olhares e trejeitos para os rapazes de sunga, e ganhou a plateia.

A pegada andaluz é resultado de uma viagem da estilista Marta Reis para Sevilha e Granada. Sobre básicos do beachwear, Marta concentrou-se nos decotes, nas fendas estratégicas e no tamanho reduzido de algumas peças, tendência tímida que começa a emergir por aqui. Para os rapazes, bermudas e material extra para as sungas, criando leves drapeados, e deixando a peça mais sensual que de costume.

Oposição entre materiais armados e fluídos, de opacidade e transparências, e as grandes aranhas negras passeando sobre a roupa configuram o melhor do desfile da Filhas de Gaia. O pano de fundo mais uma vez são flores e jardins, tendência onipresente neste Fashion Rio. Marcela Calmon e Renata Salles entram com o toque dissonante dos insetos repulsivos, e o truque das diferenças justapostas, vai um tanto mais longe do que a forma que têm passado por aqui.

Para a Cavendish, a busca pelo paraíso é o mote do verão. Formas secas, acabamentos arredondados e cores vibrantes deram o tom da coleção. Como se trata de moda “made in Rio”, a referência ao mar transborda em peixes, bordados e estampados. Inevitável, quando o próprio verão é a maior das inspirações e no release estão citados areia, beira da praia, rede de pesca, calor, pássaros coloridos, ilha deserta, pôr-do-sol, futebol, folhas de palmeiras e por aí vai. A tradução se dá em silhuetas ajustadas, que dispensam volumes alienígenas à anatomia, e assumem modelagens retas, só quebradas por evasês discretos, jabôs, babados e recortes no corpo da peça.

Sem a preocupação de mostrar moda pronta para o consumo, Melk Z-da ensaia voos arriscados e se sai bem nas construções complexas e detalhadas. Outra qualidade vem do trato com os materiais, que rege com competência em registros diferentes de textura e peso. O estilista é de Pernambuco, e uma singularidade dele é dizer de onde veio sem recorrer a alegorias.

Desta vez, são as danças folclóricas que dão substancia à coleção, revelando os laços estreitos com a cultura popular. O reizado, uma dança profana religiosa, a marujada que é exclusividade das mulheres, e o cavalo marinho, uma simbiose de teatro, música e poesia servem de mote para um exercício no mínimo audacioso de moda. De colorido, apenas um vestido vermelho intenso e uma ou outra faixa de cor na cintura. No mais, tudo é branco na coleção.


Com vestido de post-it e outras boas sacadas, OESTUDIO montou uma coleção batizada de “Atos impensados” que dispara non sense sobre a banalidade aparente, toda ela baseada nos atos automáticos que executamos no cotidiano, como enrolar os cabelos, rabiscar durante um telefonema, estourar plástico bolha, amassar papel e por aí vai.

Tratadas com bom humor, as peças ora colam direto no tema, ora enveredam pelos possíveis desdobramentos desses automatismos, em estampas e elementos de modelagem street wear. A marca se exercita em roupa confortável e sem grandes ajustes. A silhueta não tem o arroubo de volumes construídos nem de curvas repentinas. É levemente quadrada e encurtada, deixa os ombros no lugar para os rapazes e não foge muito disso também para o feminino, liberando algum excesso de material em modelos de calças. O desenho reto da alfaiataria só ganha formas projetadas do corpo meio que de improviso, reiterando o tema pouco convencional dos lançamentos.

Remix prolixo de cultura jovem na coleção Verão 2010/11 da TNG. O ponto de partida são movimentos musicais e de rua dos anos 1950. Com esse norte, a marca cozinhou a sopa de referências, requentando juntos o Mod londrino, a psicodelia das décadas de 1960 e 1970, o movimento punk, a pop art, a new wave dos anos 1980, alguma coisa dos 1990 e o que mais tiver rolado neste período.

Na passarela, o resultado não é tão rico como sugere o texto de divulgação. O repertório citado foi revisto, recombinado e diluído para gerar moda que ambiciona a venda em larga escala. Rendeu jeans claro e eficiente, uma leveza comercial convincente nas peças mais fluídas, alternando modelagem afastada do corpo ou na direção oposta, em paletós e coletes ajustados. A silhueta passeia pelos anos 1980 e se perde em outras décadas. Tem momento de oposições: ampla em cima, justa e curta embaixo. E tem contornos definidos por cintura alta e calça cigarrete. Difícil seria listar o que não tem.

Visto em Usefashion.

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