Giulia Borges, Patachou, British Colony, Juliana Jabour, Carlos Tufvesson e Espaço Fashion

Tudo que contraria as frequentes amenidades comerciais, que dominam esta edição do Fashion Rio, é suficiente para acender o interesse. No caso, era a hora e a vez de Giulia Borges mostrar a que veio, e logo ficou claro que ela estava em outra onda. Encolhendo drasticamente as proporções e lançando mão de muito cetim colorido e recortes, a estilista entrou na seara do surf para fazer interpretação curiosa do repertório que circunda o tema.

Cada peça é esvaziada em pontos estratégicos, criando formas em negativo, com desenhos de sugestão esportiva. Dessa maneira, são áreas cheias e vazias que definem a textura visual, alternando pele à vista e as cores do cetim nos recortes. Cintura marcada, evasês em saiotes curtos e nos vestidos mínimos, peças construídas por muitas tiras e sobreposições de tecido em duas cores, ressaltadas por vazados, são as armas da estilista contra a mesmice. Nem sempre o resultado é propriamente bonito. Em alguns momentos, a silhueta de cintura marcada sai achatada, entre outros acidentes de percurso. Mas boba e acomodada essa roupa não é.

Responsável por imagens icônicas de punks dos 1980 e pelas flores negras da capa do Massive Atack, o fotógrafo londrino Nick Knight é citado no release da Patachou. A marca agora está sob comando de Érika Frade, que aprofundou a distância entre a origem da grife, aquela dos tricôs imbatíveis, e esta de hoje. Em busca da nova identidade, trouxe vestidos, shorts curtos e estruturados, hotpants radicais, tomara-que-caia, decote de um ombro só e estampas florais, o que faz a ligação com Knight.

Tecnicamente, a roupa da Patachou é muito bem resolvida. Tem algo da maturidade que está eternamente em falta no mercado. Esta coleção exibe uma dinâmica nas formas que é vigorosa e sensual. Também realiza incríveis tratamentos de superfície, com telas delimitando compartimentos onde aparecem contas e estampas aprisionadas, como no vestido de Ana Cláudia Michels. Mas ainda não foi desta vez que emplacou uma ideia nova, daquilo que a marca é ou pretende ser. Em todo caso, é bom relativizar esse último comentário, que pode ser apenas o resultado de uma expectativa inadequada, considerando que todo o contexto da marca hoje é outro.

De volta às semanas de moda, a British Colony passou bonita e inspirada no 5º dia. Sem grandes gestos, mas eficiente e relaxada no melhor dos sentidos. A coleção é antenada nos desejos correntes de estilo e conforto, exibe formas amplas que rimam com bom desenho e simplicidade, o que não quer dizer falta de graça. São bem bonitos os vestidos assimétricos e de profundo decote V.

Contemplados por proporções interessantes de roupas leves, os rapazes também saem no lucro. Nesse caso, toda a calma e elegância contida não é apenas medo de correr riscos. Na verdade, eles são assumidos todo o tempo, mas sem grandes alardes. É assim que o macacão sai ampliado e leve, desfazendo de vez aquele ranço de uniforme utilitário que persegue a peça no masculino. Funcionou bem a alfaiataria com a leveza que pede o verão, para eles e para elas. Houve sensibilidade na forma e nos materiais e, antes de tudo, boa dosagem na invenção.

Outra boa apresentação foi a de Juliana Jabour, que entrou em cena mostrando segurança também no comando de belas peças em algodão, linho, shantung de seda, tafetá e sarja, deixando no passado os tempos exclusivos dos vestidinhos de malha que lhe deram fama. Tudo bem que os babados ainda estão lá, e que o shortinho combinado ao top de verão é básico e, obrigatoriamente, tem de ser bem feito. Pelo menos no patamar em que ela está. Mas a roupa como um todo amadureceu em estilo. Disso não há dúvidas, e faz sentido comemorar.

Carlos Tufvesson corteja o vulgar com garotas abusadas, de vestidos muito curtos, encarnando estereótipos de strippers e escort girls. Sobre sandálias pesadas e altas, elas entram firmes na passarela cheia de barras verticais, aparentemente, prestes a encarar uma pole dance. Como faz isso reiteradamente, e com segurança, Tuvfesson vai se impondo nesta fronteira arriscada.

O desfile funciona bem como espetáculo, enquanto a roupa supersexy, na verdade, nem passa tão longe da que frequenta as noites de grandes centros urbanos. A estética e as proporções é que encontram correspondência no estilo da Balmain e de outras marcas de grande visibilidade. Hoje, o estilista esquentou de vez o Fashion Rio. O jeans entra como linha especial e também passou bem.

Construindo em camadas e assimetrias, a Espaço Fashion reitera o evasê, os corsets, as transparências, os vestidos de um ombro só e alivia o peso de estações passadas com a cartela de pâtisserie. Outros sinais de leveza vêm dos laçarotes enormes na cabeça e das estampas florais. Definitivamente, esses sinais vêm da guinada para os anos 1950, ecoando movimentações na cena internacional capitaneadas por Louis Vuitton e Prada.

Visto em Usefashion.

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